Povo xucuru Kariri envia carta ao Presidente Lula
Foto: Cortesia Na última sexta feira (23), O povo xucuru Kariri enviou uma carta ao Presidente da República, Luís Inácio Lula da Silva, solicitando ao presidente a intervenção sobre a homologação do território Xukuru-Karirri, localizado em Palmeira dos Índios. De acordo com o teor da carta, o povo tem sofrido por não habitar no seu território de forma justa e solicita que providências sejam tomadas para garantir a devolução da terra aos Xucuru-Kariri. A povo xucuru Kariri trava uma batalha em Palmeira dos Índios que é marcada por disputas pela posse das terras e violência . A carta enviada ao presidente é um apelo para que Lula , possa interferir a favor dos indígenas. “Ajudamos a te eleger porque acreditamos no compromisso de Vossa Excelência com a nossa justa causa por território. Até quando será nossa espera”, diz um trecho . As terras atualmente são habitadas por moradores que já reagiram algumas vezes de forma violenta ao levantamento cadastral fundiário, necessário ao processo de identificação e delimitação. Boa parte dos ocupantes alega ter recebido as mesmas como herança e que estas jamais foram de índios. Segue a carta na íntegra CARTA DO POVO XUKURU-KARIRI AO PRESIDENTE DA REPÚBLICA E À SOCIEDADE ALAGOANA Nós, povo Xukuru-Kariri, filhos e filhas desta Terra ancestral, originários do território tradicional localizado no município de Palmeira dos Índios, no Estado de Alagoas, saudamos com respeito e espírito de acolhida a presença do Senhor Presidente da República, Luís Inácio Lula da Silva, em nossas terras. Terra viva, marcada pela memória dos nossos antepassados, pelas culturas que resistem e pelo cuidado de povos que caminham sustentados pela esperança, pela confiança e pela fé. Falamos a partir do chão que pisamos, da memória viva dos que vieram antes de nós e do sopro espiritual que nos sustenta como povo. Nossa existência está enraizada na vida comunitária, no cuidado com a natureza e no reconhecimento de que tudo o que vive está profundamente interligado. Para nós, a Terra não é mercadoria: é mãe, é altar, é morada sagrada onde a vida se renova e se protege. Vivemos tempos de grande sofrimento humano, marcados por divisões, violências, destruição da natureza e endurecimento dos corações. Nossa sabedoria ancestral nos ensina que ninguém nasce para promover a dor, a mentira, a guerra ou a opressão. Acreditamos que todo ser humano é chamado a trilhar o caminho do bem viver, da escuta atenta, do diálogo sincero e da construção da paz. Como povo originário, carregamos a dor de sucessivas injustiças. Por gerações, tivemos negado o direito às nossas terras tradicionais, ainda que elas sejam fundamentais para nossa sobrevivência física, cultural e espiritual. Mesmo diante dessa história de negação, não desistimos de esperar: esperamos por justiça, esperamos por paz e esperamos por um tempo em que o direito caminhe junto com a dignidade, permitindo que a vida floresça sem medo. Nosso desejo é simples e profundo: viver em paz, cuidar de nossas famílias, preservar nossos rituais, nossa fé e nossa forma própria de estar no mundo. Neste momento em que o processo de demarcação de nosso território tradicional avança, dirigimo-nos a Vossa Excelência para reafirmar nossa esperança e nosso pedido pela homologação definitiva de nossas terras, como ato de justiça histórica, de fiel cumprimento da Constituição Federal de 1988 e de promoção da paz social. Para nós, a homologação é um passo sagrado e necessário, capaz de restaurar caminhos, curar feridas e assegurar que a vida siga seu curso com dignidade. Ajudamos a te eleger porque acreditamos no compromisso de Vossa Excelência com a nossa justa causa por território. Desde o governo de transição, foi formado o compromisso de homologação do território Xukuru-Karirri, demarcado em durante o vosso segundo governo. Até quando será nossa espera? Defendemos que a eventual retirada das famílias não indígenas que ocupam nosso território seja conduzida pelo Estado com responsabilidade, diálogo e respeito à dignidade humana, conforme os princípios da justiça social. A dor não pode ser multiplicada, nem o sofrimento de uns utilizado para aprofundar injustiças contra outros. O direito sagrado à vida deve orientar todas as ações. Clamamos para que o espírito do diálogo, da tolerância e da escuta verdadeira prevaleça. Temos assistido, em nosso município, a situações que geram preocupação e que, se não forem conduzidas com responsabilidade institucional, podem estimular conflitos e enfraquecer a paz social. Confiamos que a homologação de nosso território contribuirá para encerrar tensões e abrir caminhos duradouros de justiça e de paz, pois sem justiça não há paz verdadeira. Nós, Xukuru-Kariri, acreditamos que todos fazemos parte de uma mesma família humana, ligados uns aos outros e à própria natureza. Somos Terra, e a Terra vive em nós. Defender nosso território é defender a vida, o alimento, a dignidade de nossas crianças e a continuidade de nossa história. Queremos nossas terras para semear, colher, partilhar e rezar. Não para a especulação, mas para a vida que brota, resiste e permanece. Nossa Terra é nosso Altar, onde quer que ela esteja. Que esta carta seja acolhida com os ouvidos do coração. Que a justiça esperada se transforme em realidade e que a paz, tão desejada, encontre morada em nossas terras e em nossas relações. Que as aspirações do povo Xukuru-Kariri encontrem eco nas ações do Estado brasileiro. CARTA DO POVO XUKURU-KARIRI AO PRESIDENTE LULA – 23-01-2026
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